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Mulheres que transformam linhas em autonomia: o empreendedorismo feminino fortalecido no Recife

Imagem: Reprodução

Por: Aisha Vitória

Rede de Artesãs e Tá Com Elas fortalecem mulheres por meio da geração de renda, capacitação e autonomia financeira

Entre linhas, agulhas, feiras e mentorias, mulheres do Recife têm encontrado no empreendedorismo mais do que uma fonte de renda. Para muitas delas, empreender representa a possibilidade de reconstruir a própria vida, conquistar independência financeira e romper ciclos de vulnerabilidade.

Projetos como a Rede de Artesãs e o Tá Com Elas, desenvolvidos pela Secretaria da Mulher do Recife, vêm transformando pequenos negócios em oportunidades de autonomia, acolhimento e fortalecimento social para mulheres da capital pernambucana. 

Voltadas principalmente para mulheres em situação de vulnerabilidade social, as iniciativas oferecem mentorias, capacitações, suporte técnico e espaços de comercialização para empreendedoras que buscam no próprio trabalho uma forma de sustento e recomeço.

Tá Com Elas

Segundo dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), as mulheres representam cerca de 34% dos donos de negócios no Brasil. Apesar do crescimento da presença feminina no empreendedorismo, desafios como desigualdade de renda, sobrecarga doméstica e dificuldade de acesso ao crédito ainda fazem parte da realidade de muitas brasileiras. 

Foi justamente diante dessas dificuldades que surgiu o Tá Com Elas. De acordo com Joyce Andrade de Araújo, analista de dados do projeto, a iniciativa nasceu como uma alternativa para mulheres que empreendem por necessidade.

    "O Tá Com Elas é um projeto que nós conseguimos fazer como essa alternativa para a empreendedora que é de sobrevivência na cidade e não tem recursos para melhorar o negócio", Afirmou.

O projeto oferece mentorias personalizadas em áreas como marketing, precificação, comunicação e gestão. As orientações são realizadas em parceria com estudantes e integrantes da Federação de Empresas Juniores de Pernambuco (FEJEPE), reunindo diferentes áreas do conhecimento para auxiliar as empreendedoras.

    “Se você tem dificuldade em marketing, você também tem dificuldade em precificação, e dificuldade em ter conexões com outras empreendedoras. Então, a gente fornece isso”, explicou Joyce.

Rede de Artesãs

Já a Rede de Artesãs atua diretamente na criação de oportunidades para mulheres que trabalham com produção artesanal. Segundo Thayna Barros, coordenadora da Rede de Artesãs, o foco é abrir caminhos para que as empreendedoras consigam ocupar espaços de venda e divulgação.

    “A gente bota o chão para elas pisarem, literalmente. Eu sempre digo às artesãs que a gente está para buscar um espaço para elas exporem. O que a gente faz é ser vitrine para elas. Elas vão ter que andar sozinhas. E a gente quer que elas andem sozinhas”, destacou.

Entre as iniciativas promovidas pela rede estão feiras itinerantes, participação na Fenearte e espaços de comercialização em shoppings e eventos da cidade.

Válvula de escape

Para Graça Simões, assistente social da Secretaria da Mulher do Recife, o empreendedorismo feminino também está diretamente ligado ao enfrentamento da violência contra a mulher.

Ela explica que muitos dos projetos surgiram da necessidade de garantir autonomia financeira para mulheres que permaneciam em relações abusivas por dependência econômica.

O cenário reflete uma realidade alarmante, onde mais de 21 milhões de brasileiras, o equivalente a 37,5% das mulheres do país, sofreram algum tipo de agressão nos últimos 12 meses, segundo pesquisa Datafolha encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Já em Pernambuco, dados da Secretaria de Defesa Social (SDS) apontam que, apenas nos dois primeiros meses de 2026, o estado registrou 8.103 casos de violência doméstica e familiar contra a mulher, uma média de 137 ocorrências por dia. 

“Não bastava só afastar o agressor. Ainda tinha toda a situação financeira dela. Como ela ia ficar? Já que ele botava a comida em casa e dava o teto. Então as mulheres se submetiam a isso (relações abusivas) por causa dos filhos, por causa delas mesmas”, afirmou. 

A partir dessa necessidade, a Secretaria passou a identificar habilidades e interesses das mulheres atendidas para inseri-las em atividades empreendedoras. 

“Algumas tinham aptidão para fazer alguma coisa: comidas, costura, bazar… Então, a gente juntou essas mulheres e começou a criar eventos e oportunidades para elas”, contou. 

O crochê como recomeço

Entre as mulheres atendidas pela rede está a microempreendedora independente Sandra Arruda, de 52 anos, que encontrou no crochê uma nova fonte de renda durante um período difícil da vida.

Ela aprendeu a técnica ainda criança, mas passou cerca de 30 anos sem produzir nenhuma peça. O retorno ao artesanato aconteceu pouco antes da pandemia, após precisar deixar o mercado formal de trabalho para cuidar da mãe doente.

“O crochê voltou para mim assim como para me trazer equilíbrio, me trazer de volta. E para mim foi muito bom. Eu não pensava nunca que podia virar o meu trabalho, minha fonte de renda”, relatou.

Hoje, o artesanato é sua principal atividade profissional. Sandra conta que o processo de empreender foi marcado por inseguranças, medo e necessidade constante de aperfeiçoamento.

“A maioria pensa que é dom, mas se você não estudar, se não aprimorar, se não aperfeiçoar, o dom não sustenta muito tempo”, disse.

Imagem: Reprodução

A dupla jornada da mulher empreendedora

Mãe solo e responsável pelo sustento da casa, ela afirma que conciliar trabalho, família e produção artesanal é um dos maiores desafios da rotina.

“Eu sou a empreendedora que produz, que compra, que vende, que cota. O marketing sou eu, o setor de compras sou eu, o setor de produção sou eu, então eu sou minha empresa”, afirmou.

Além da produção manual, Sandra também precisou aprender a utilizar ferramentas digitais para divulgar o trabalho. 

“No começo eu não era muito fã de rede social, não. Mas aí a gente vai se adaptando. Hoje a gente já tem um Instagram legal e até catálogo no WhatsApp Business”, contou.

Segundo ela, o apoio da Rede de Artesãs e das mentorias foi fundamental para enxergar o crochê não apenas como hobby, mas como profissão.

“Depois que eu entrei para a rede, fui deixando de ver o crochê como hobby e passei a vê-lo como uma fonte de renda. Hoje eu sou microempreendedora individual”, destacou.

Desafios e Preconceito

Apesar do crescimento do empreendedorismo feminino, Sandra afirma que o trabalho artesanal ainda enfrenta uma grande desvalorização social. Ela compara a valorização de peças vendidas em grandes lojas com a realidade das feiras de rua.

“Ainda existe um preconceito sobre o trabalho artesanal. Ainda se acredita que é ‘coisa da vovó', que é para ser apenas hobby. Uma loja no shopping passou um tempo vendendo roupas em crochê. Uma peça que eu jamais, como artesã, teria coragem de oferecer a uma cliente. R$198,00 em um topzinho de crochê, com um material ruim. Se eu fizer o mesmo top numa feira de rua e vender por R$80, a primeira coisa que eu escuto é: ‘não está muito caro, não?", relatou.

Ao longo da trajetória como microempreendedora, Sandra também afirma perceber diferenças entre o empreendedorismo feminino e masculino, especialmente dentro das feiras e espaços de comercialização artesanal.

Segundo ela, homens e mulheres costumam ocupar nichos diferentes, mas as mulheres enfrentam uma concorrência maior dentro do próprio segmento.Enquanto homens geralmente atuam em áreas mais específicas, como venda de cafés, bebidas ou prataria, o artesanato manual é majoritariamente ocupado por mulheres, tornando os espaços mais disputados entre elas.

“Parece que o espaço do homem no empreendedorismo está sempre mais direcionado, como se já estivesse ali garantido. Você raramente vai ver um homem vendendo crochê, raramente vai ver um homem vendendo macramê ou tricô.” 

Apesar disso, ela destaca que, mesmo utilizando a mesma técnica, cada artesã desenvolve peças únicas.

Incentivo e Fortalecimento

Para as coordenadoras dos projetos, o fortalecimento das mulheres acontece também por meio do sentimento de pertencimento e apoio coletivo.

“Estamos aqui com você”, resumiu Joyce ao falar sobre o acompanhamento oferecido às empreendedoras.

A troca entre mulheres, segundo as participantes, se tornou uma das principais ferramentas de fortalecimento dentro da rede. Além das mentorias e feiras, as próprias empreendedoras compartilham oportunidades de trabalho e serviços entre si.

Mesmo diante das dificuldades, Sandra acredita que persistir é essencial para quem deseja empreender.

“Não é para desistir, não. É difícil, dá medo. Mas enquanto você acreditar que é capaz, você tem que seguir tentando”, concluiu.

Imagem: Reprodução


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